
Ao subir no púlpito para o encerramento do 14º Fórum de Lisboa, o ministro Gilmar Mendes pediu desculpas ao público pelo desconforto do auditório lotado da Faculdade de Direito e emendou em tom de ironia: “Havia uma previsão que o fórum estaria esvaziado”.
Por trás dessa fala, toda uma engenharia montada justamente para evitar essa impressão.
Em auditório menor do que o da abertura, o encerramento contou com a presença do único ministro do STF que compareceu ao evento, Alexandre de Moraes, que sentou-se ao lado de Michel Temer, ex-presidente responsável por sua indicação à Corte. Na plateia, um time de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representantes de países africanos de língua portuguesa e docentes do IDP, faculdade de Gilmar responsável pelo evento.
O recado estava posto: não transparecer esvaziamento, mesmo diante da presença de apenas um ministro do Supremo e da ausência do primeiro escalão do governo.
O “Gilmarpalooza” precisava lidar com grandes obstáculos: a sombra dos escândalos do Banco Master, a briga com a magistratura por conta da decisão do STF que afastou os penduricalhos e a discussão de um código de ética proposto pelo presidente da Corte, Edson Fachin, que, entre os pontos, questiona a participação de magistrados em eventos.
Dessa forma, se antes já havia dúvidas éticas, elas ficaram mais expostas pelos acontecimentos.
Enquanto isso, no Brasil, um congresso com magistrados com a temática de direito e ética promovido pelo atual presidente do STJ, Herman Benjamin, com participação de Fachin e Cármen Lúcia. Nos bastidores, a leitura foi de que o evento não só concorreu, como parecia uma afronta ao “Gilmarpalooza”.
Gilmar agiu. Em um primeiro momento, entrevistas foram agendadas com o ministro nos mais diversos veículos de comunicação brasileiros e portugueses. No entanto, as manchetes não focaram no fórum, mas nas declarações ligando o Master à Faria Lima e a briga com Romeu Zema.
Outras estratégias simultâneas foram traçadas. Uma delas o prestígio do próprio decano. Por isso, foi importante a confirmação da presença de nomes do cenário nacional e históricos aliados de Gilmar, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o futuro presidente do STJ, Luís Felipe Salomão; e Moraes.
Ao mesmo tempo, a ampliação do escopo do fórum, cada vez menos jurídico e com maior variedade de temas, permitiu a presença de nomes internacionais de peso, como o Nobel de Economia Joel Mokyr.
Outra estratégia foi focar em garantir autoridades brasileiras com poder decisório em temas relacionados à tecnologia e soberania – nomes como o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator do projeto de IA na Câmara, e o próprio presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), indicavam o prestígio do evento.
Ao fim, o “Gilmarpalooza” sobreviveu. Não só ele, mas também os eventos paralelos promovidos por entidades e empresas que aproveitam da audiência de autoridades reunidas em Lisboa.
