Poucos fenômenos humanos traduzem tão bem a vida quanto o futebol. Durante 90 minutos, ele nos convence de que tudo pode mudar na jogada seguinte. Um time desacreditado vira favorito. Um herói se transforma em vilão. Um vilão reencontra o aplauso da torcida. Essa imprevisibilidade é o que torna o futebol tão fascinante. Apesar do resultado nunca garantido, voltamos ao estádio, ligamos a televisão e acreditamos outra e outra vez. Essa é a magia do esporte.
Bruno Guimarães em cobrança de pênalti contra a Noruega, pela Copa do Mundo
Para quem vive da advocacia, essa percepção é ainda mais familiar. Assim como uma partida, um processo nunca é decidido apenas pelo esforço de uma das partes. O advogado estuda, prepara a estratégia, sustenta suas razões e entrega o melhor de si, mas o resultado pertence ao convencimento do julgador. Ainda assim, volta ao tribunal no dia seguinte, porque sabe que a esperança é parte indispensável da profissão. O futebol e a advocacia compartilham essa mesma verdade: ninguém controla o resultado; controla apenas a forma como se prepara para alcançá-lo.
Curiosamente, quando se trata da seleção brasileira, parecemos esquecer essa essência. A cada Copa do Mundo, um sonho legítimo acaba se transformando em obrigação. Não basta competir. Não basta jogar bem. Não basta chegar longe. O único desfecho considerado aceitável parece ser a conquista do hexacampeonato. Estamos impondo à camisa amarela um peso maior do que qualquer geração de jogadores consegue carregar.
O Brasil construiu uma história única no futebol mundial. Cinco títulos, equipes inesquecíveis e atletas que ajudaram a transformar o esporte em patrimônio cultural do país. Esse legado é motivo de orgulho. Não deveria, porém, converter-se em uma sentença permanente para todos os que vêm depois.
O esporte de alto rendimento exige responsabilidade, disciplina e excelência. Também exige confiança. Nenhum atleta atua em sua plenitude quando entra em campo acreditando que um único erro apagará todo o trabalho realizado até ali. A pressão faz parte da competição. O excesso dela costuma produzir apenas medo.
Nenhum advogado experiente acredita que vencerá todas as causas. A maturidade profissional ensina que a excelência está na preparação, na ética e na consistência dos argumentos, não na ilusão de controlar todas as decisões. Quem entra em uma audiência dominado pelo receio da derrota dificilmente consegue apresentar o melhor de sua capacidade. No futebol ocorre exatamente o mesmo. A pressão excessiva não produz excelência; produz insegurança.
Isso não significa abandonar a crítica. A imprensa exerce um papel indispensável ao analisar escolhas técnicas, apontar falhas e cobrar profissionalismo. O torcedor também tem o direito de exigir comprometimento de quem veste a camisa da seleção.
Quando a crítica deixa de buscar aperfeiçoamento e passa a alimentar uma condenação antecipada, no entanto, instala-se um paradoxo. Espera-se excelência enquanto se cultiva desconfiança. Cobra-se criatividade em um ambiente dominado pelo medo de errar.
Durante décadas, vestir a camisa amarela significava muito mais do que torcer por um time. Era um gesto de pertencimento. Crianças imitavam seus ídolos nas ruas. Famílias interrompiam a rotina para assistir aos jogos. Por alguns instantes, um país inteiro parecia respirar no mesmo ritmo.
Parte dessa relação foi se perdendo ao longo dos anos. Resultados esportivos, crises institucionais, polarização política e mudanças culturais contribuíram para esse afastamento. Ainda assim, permanece viva a possibilidade de reconstruir esse vínculo.
Papel importante da imprensa
Sem abrir mão da independência e do olhar crítico, pode ajudar a resgatar o prazer da caminhada. Contar boas histórias, reconhecer evoluções, contextualizar derrotas e lembrar que uma Copa do Mundo não começa na final. Ela começa muito antes, quando um grupo passa a acreditar em si e um país decide voltar a acreditar junto.
O hexacampeonato continua sendo o sonho de todo brasileiro. Sonhos inspiram. Não deveriam aprisionar. Chegou a hora de substituir o peso da obrigação pela força da esperança.
No futebol, heróis mudam de camisa, coroas trocam de cabeça e reis deixam o trono. O jogo continua, sempre imprevisível, sempre capaz de oferecer uma nova oportunidade. É justamente essa incerteza que nos faz voltar a cada partida. Uma seleção apoiada costuma jogar mais leve do que uma Seleção permanentemente julgada. O apoio não elimina a responsabilidade. Apenas cria o ambiente necessário para que ela floresça.
O futebol apenas amplia aquilo que a vida já nos ensina todos os dias. Não controlamos o resultado. Controlamos nossa preparação, nossa dedicação e a maneira como enfrentamos cada desafio. Essa talvez seja a maior lição compartilhada entre o gramado e o tribunal. O advogado não abandona a defesa porque perdeu um processo. Estuda mais, aperfeiçoa seus argumentos e volta a acreditar na causa seguinte. A seleção também precisa entrar em campo com esse espírito: comprometida com a vitória, mas livre do peso paralisante da obrigação.
O hexa virá um dia, como chegaram os outros cinco títulos. Até lá, talvez a maior conquista seja recuperar o orgulho de vestir a camisa amarela e caminhar novamente ao lado da seleção. Afinal, tanto na advocacia quanto no futebol, a confiança não garante a vitória, mas sua ausência quase sempre prepara a derrota. Grandes conquistas nascem quando a responsabilidade é acompanhada pela esperança, e não sufocada pelo medo.
