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Uma voz por trás dos números Para Aisha Haila, uma jovem de 20 anos natural de Aracaju (SE), os dados da PeNSE…


Uma voz por trás dos números

Para Aisha Haila, uma jovem de 20 anos natural de Aracaju (SE), os dados da PeNSE não são apenas estatísticas, mas o reflexo de uma jornada que ela conhece de perto. Durante a adolescência, Aisha enfrentou um profundo isolamento, agravado pela pandemia de covid-19, que a levou a questionar seu próprio valor e importância. Na época, ela também começava a enfrentar as dificuldades de uma neurodivergência que ainda tenta diagnosticar.

— O isolamento dá muita voz para situações mentais. Você começa a pensar que não tem importância, porque está ali dentro de uma bolha — relata a jovem.

A percepção de que precisava de ajuda veio após anos lidando com ideações suicidas, que surgiram, precocemente, aos 11 anos. Aisha descreve ter chegado a um estado de “vazio absoluto”, onde não sentia raiva, tristeza ou alegria:

— Chegou uma hora que não era mais dor, era uma coisa inominável. Eu não sentia nada.

A virada de chave ocorreu quando ela percebeu que estava vivendo no ritmo “um ano após o outro”, e decidiu que merecia mais. Buscou, então, aconselhamento profissional e atividades terapêuticas.

Para ela, o que realmente fez a diferença em sua recuperação foi o senso de comunidade proporcionado pelo exercício de trabalho voluntário. Os projetos sociais forçaram Aisha a sair da cama e se manter ativa.

— Uma das coisas que me ajudou a sobreviver foi me doar ao outro. Eu comecei a ver importância em mim, mas primeiro a partir de os outros verem. Eu tinha que levantar, tomar banho, parecer apresentável… E foi nisso, de estar dentro da comunidade, que eu consegui realmente ultrapassar [o estado anterior].

A mensagem que Aisha deixa para outras meninas que enfrentam o sentimento de que a vida não vale a pena é um exercício de persistência e autoafirmação. Ela aconselha que, além de buscar ajuda profissional e de adultos de confiança, as jovens devem combater as vozes internas negativas diariamente.

— Se contradiga todos os dias da sua vida. Quando você tiver aquela voz no fundo da sua cabeça dizendo que você não é suficiente, fale em voz alta: “Eu sou o suficiente. Eu mereço viver”. Embora pareça difícil no início, acaba transformando a realidade. Fale até ser verdade. Eu tanto “menti” em cima daquilo que virou a minha verdade.

Hoje, ela integra o comitê de jovens do Instituto Cactus. Sua atuação no serviço social é uma forma de garantir que outras histórias não se percam no anonimato das planilhas.

— Eu não queria mais ser só um dado, só um número de uma pesquisa. Eu quero que a minha verdade seja escutada, assim como a verdade de tantas outras pessoas ao meu redor.



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